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Doce remédio
Em novembro de 2001, a Divisão
de Produtos Químicos e farmacêuticos da Roche Brasil,
multinacional suíça que atua há 72 anos no mercado
farmacêutico brasileiro, percebeu que seu almoxarifado de
material promocional estava com estoque excessivo e uma
operação obsoleta. Com 1.080 m2 e armazenando cerca de 1.100
itens dos mais variados, o almoxarifado atende às campanhas
promocionais da empresa voltadas aos médicos e, mais que
velocidade, precisa prestar um atendimento com precisão.O
local apresentava vários problemas, como itens estocados em
excesso, sistema de endereçamento falho e layout inadequado, o
que gerava desperdício de área, morosidade, dificuldade na
operação e congestionamento nas áreas de movimentação.Maurício
Ricardo Tinello, gerente de Serviços Administrativos da Roche
que recebeu a incumbência de melhorar as operações do
almoxarifado, explica a questão. "Havia sobra de material de
campanhas, o que acabava transformando o armazém em um
depósito de brindes. Como não havia controle preciso dos
materiais em estoque, muito do que já poderia ter sido
desativado permanecia no local, gerando custos de estocagem e
ocupando espaço que poderia abrigar outros itens", coloca o
gerente. "Muitas vezes, os produtos eram recebidos e entravam
no sistema de uma forma, mas as baixas do sistema eram
diferentes, de modo que o estoque físico nunca batia. E havia
ainda problemas de endereçamento. Enfim, não tínhamos muito
controle da situação".A necessidade de tornar os processos
dentro do armazém mais seguros, eficientes e com menores
custos era premente, mas a gerência de Serviços
Administrativos da Roche Brasil, enfrentava um problema
clássico: não havia verba destinada a este projeto, o que
significava que ele deveria ser de baixíssimo custo.Além de
notar que precisava de uma melhora urgente, a Roche percebeu
também que necessitava do auxílio de especialistas que
pudessem dar uma solução mais eficiente e mais rápida. "Não
somos especialistas em supply chain, nosso negócio é fazer
remédios", resume Tinello. Decidiram então usar os serviços da
Qualilog Consulting, empresa que já atuava dentro da Roche na
área de treinamento e que também é especializada em
planejamento e implementação de projetos de supply chain
management, logística, comércio exterior e planejamento
estratégico, atendendo a indústria, varejo, órgãos
governamentais, operadores logísticos, instituições
financeiras e de ensino, entre outros. Recursos já
existentesOs ciclos de distribuição deste almoxarifado começam
no departamento de Marketing da Roche, que passa a grade anual
das campanhas e, com base nelas, o pessoal do almoxarifado
prepara as grades para distribuição. Via SAP, é informado o
que vai chegar; são feitos então o recebimento, a armazenagem,
a se-paração e a distribuição na época de cada campanha. O
material deste almoxarifado é sempre produzido para as
próximas campanhas da Roche, tendo um giro relativamente
rápido. Mas pode acontecer de haver sobras de campanha e,
nesse caso, o saldo ficava estocado no local
indeterminadamente. Analisando o local, a Qualilog propôs
fazer, a princípio, mudan-ças simples, que não exigiriam
aporte de capital e que pode-riam ser implementadas
rapidamente. Mais tarde, caso houvesse necessidade, se-riam
estudadas solu-ções mais sofisticadas."Vimos que os principais
problemas eram a falta de controle do estoque e o layout
ina-dequado do almoxarifado, além da falta de informações que
melhor orientassem as pessoas lá dentro. Havia duas direções
de colunas, prejudicando a circulação, e a área de picking
estava situada muito próxima da área das estruturas
porta-paletes, também com layout inadequado, prejudicando a
movimentação das pessoas envolvidas na separação e aumentando
o tempo de expedição" enumera Cristiano Cecatto, consultor em
Logística Inbound/Outbound da Qualilog."Vimos que, para o
volume de ope-rações da Roche, a área era suficiente. Só que,
para melhor atender às necessidades atuais e futuras,
funcionando como um centro de distribuição, teria de ser
melhor aproveitada" continua Germano Correia, Consultor em
Logística e Supply Chain Management da Qualilog. "Sugerimos,
então, começar pela otimização do uso deste armazém para,
depois, medir o que faltava e onde investir, visando a melhor
relação custo/benefício".O projeto foi dividido em três fases.
A primeira, de concepção das mudanças; a segunda, de
levantamento dos dados e informações, que incluiu o estudo da
planta original do armazém; e a terceira, de implementação das
mudanças e preparação dos funcionários para trabalhar dentro
da nova cultura.A primeira providência tomada pela consultoria
foi redesenhar o layout, racionalizando e potencializando ao
máximo o aproveitamento do espaço. O fluxo foi otimizado com a
inclusão de um corredor central, permitindo o acesso a todos
os corredores laterais com maior agilidade e segurança. Este
corredor também servirá, futuramente, para interligar este CD
a um outro armazém contíguo, que será anexado dentro de um
projeto de ampliação de espaço útil.A largura de corredores
foi padronizada em 2,7 metros, compatível com os equipamentos
de movimentação utilizados pela Roche, (empilhadeiras manuais
e paleteiras), com possibilidades de ampliação. "Se
necessário, basta estreitar os corredores e aumentar a altura
das estruturas para ampliar a capacidade", diz Cecatto. A
construção original do edifício não previa sua utilização como
um centro de distribuição, e há três pilastras de sustentação
centrais que, no desenho anterior, estavam em posição
inadequada, causando perda de espaço. Com a reconfiguração,
elas foram ali-nhadas aos corredores e às estruturas
porta-paletes sem prejudicar a circulação. As antigas
estruturas foram reaproveitadas e um pouco mais foi comprado,
suprindo a necessidade.A decisão de manter o porta-palete como
base da armazenagem deveu-se a vários motivos, entre eles o de
já serem utilizados, evitando grandes investimentos. Além
disso, este sistema apresenta 100% de seletividade, com
qualquer palete sendo acessado sem a necessidade de se
movimentar outros paletes, e adapta-se a um grande número e
tipo de cargas, de pesos e volumes variáveis. O porta-palete
também pode ser utilizado com a maioria dos equipamentos de
movimentação.A Roche ainda utiliza, neste almoxarifado,
paletes de 0,8m x 1,20m, um padrão europeu adotado pela
indústria farmacêutica. Por ora, como são usados apenas para
armazenar produtos e não para expedição, que é manual, serão
mantidos. Posteriormente, podem ser trocados por outro padrão
de palete. "Decidimos mantê-los pelo mesmo motivo: não havia
necessidade imediata de fazer a troca, seria um investimento
perdido neste momento, já que a expedição ainda não é
totalmente paletizada", afirma Cecatto. O palete hoje é usado
como um endereço, podendo conter vários produtos.Está
prevista, futuramente, a padronização das alturas dos paletes
da Roche, o que permitirá acrescentar um nível de armazenagem,
passando-se dos atuais três para quatro níveis, aumentando o
espaço útil e o número de posições no CD.Maior velocidadeA
área de separação também foi remodelada e reduzida, com
capacidade para atender a todas as campanhas por meio de um
melhor planejamento. Anteriormente, a má localização reduzia a
mobilidade das pessoas e elevava o tempo de separação e de
expedição, que era de oito dias, muito alto frente às
exigências dos distribuidores e clientes. A área de picking é
a que envolve maior número de pessoas dentro do CD e a
modificação, além do aumento de eficiência, já previu a futura
utilização do espaço como uma área de cross
docking."Mantivemos um pulmão para o material que vai ser
embarcado, apesar de acharmos que não havia necessidade, já
que a área de separação é muito próxima da doca de embarque.
Mas decidimos respeitar a vontade dos operadores, para que não
houvesse um choque cultural muito grande, evitando
resistências às mudanças", coloca Germano Correia.Com a
reformulação, o prazo de atendimento dos pedidos caiu para
cinco dias e o tempo gasto na operação foi reduzido em 60%,
permitindo o aproveitamento das pessoas envolvidas em outras
tarefas.Com essas mudanças simples, foram ganhos 47% na
capacidade de armazenagem, com aumento dos 820,5 m3 anteriores
para aproximadamente 1.215 m3 atuais. Isso, com um
investimento mínimo em estruturas de armazenagem e na pintura
do chão, que ganhou marcações de direção e endereços para
facilitar o trabalho dos operadores. "Por ora, vimos que não
há necessidade de adotar um sistema mais sofisticado, como um
WMS, por exemplo. Seria um investimento alto para uma operação
que, por ora, é muito simples e pode ser perfeitamente
controlada por outros sistemas", afirma Cecatto. Futuramente,
com a ampliação do CD, está prevista a implementação de
códigos de barras no endereçamento.ControleFoi feito um
levantamento minucioso do estoque e criado um sistema para
controle dos custos, feito conjuntamente entre a Qualilog e a
Roche. Foi implantado também um sistema de endereçamento – que
por ora é manual, mas pode ser automatizado na medida da
necessidade – possibilitando, inclusive, a armazenagem de
produtos diferentes no mesmo palete, o que antes era
impensável.Para melhorar o controle do estoque, foi
desenvolvido um sistema de books dos produtos armazenados. Com
uma câmara digital, o material é fotografado e fica disponível
para os gerentes, com os valores de cada item. Com isso, eles
sabem os produtos existentes em estoque. Além do maior
controle, este método permite fazer campanhas pontuais com
base em produtos já existentes, ajudando descartar itens e
reduzir o inventário.Também foi adotado o prazo máximo de 180
dias para a permanência dos produtos no almoxarifado, o que
antes não existia e ocasionava estoques "eternos" de produtos
que não teriam mais utilidade. Com o descarte, o número de
itens em estoque caiu 14%, indo de aproximadamente 1.480 para
1.300 SKUs. O melhor controle possibilitou que, em pouco
tempo, os níveis de estoque caíssem 30% com uma economia de R$
1 milhãoSimplicidadeFinalizando o projeto, a Qualilog fez o
treinamento dos funcionários, mostrando os novos procedimentos
de armazenagem, movimentação e expedição para auxiliares e
supervisores do CD. Foi criado um manual de política e
procedimentos, pa-dronizando a operação, o que é muito
importante para reduzir custos e faci-litar a ampliação das
operações, que está nos planos da Roche.Entre o início do
projeto e o funcionamento efetivo do armazém no novo esquema,
foram gastos cerca de seis meses, e o retorno foi imediato,
como explica o gerente da Roche. "O fantástico deste projeto é
a sua extrema simplicidade e o retorno elevado e rápido que
tivemos", destaca Tinello. "Com um pequeno investimento e num
prazo curto, ti-vemos redução de custos, me-lhor controle e
maior eficiência nas operações. Isto foi feito usando a
criatividade e não o dinheiro", res-salta o gerente.O que
antes era um simples almoxarifado agora pode ser de fato
chamado de centro de distribuição. A com-pra e armaze-nagem
dos materiais de escritório, que antes eram feitas pela
divisão de Vitaminas, agora são feitas neste CD, assim como a
negociação de fretes de distribuição. Isto permitiu melhores
negociações com os transportadores e ganhos de prazos.Por sua
simplicidade e alto retorno, este projeto foi classificado em
segundo lugar, no ano passado, no "Prêmio ABML de Logística –
Categoria Armazenagem", concedido anualmente pela Associação
Brasileira de Movimentação e Logística às empresas que
apresentaram os melhores projetos ao longo do ano anterior. Os
trabalhos são analisados por uma comissão julgadora composta
pelos maiores especialistas do setor no país.Mas não foi
apenas externamente que o projeto se destacou. Seu sucesso foi
tanto que outras empresas do grupo Roche já têm planos de
"tercei-rizar" sua logística, alugando espaço físico. "Hoje,
temos espaço sobrando. Além do próprio armazém, existem duas
áreas contíguas, com metragem semelhante, que podem ser
utilizadas para futuras ampliações. Já há interesse de duas
empresas do grupo em operar conosco", comemora o gerente da
Roche.A empresa prevê fazer adaptações nos armazéns, criando
inclusive áreas refrigeradas, adequadas à arma-zenagem dos
novos produtos das coligadas. "Teremos áreas segregadas,
pintura e porta-paletes especiais para ambientes refrigerados;
pretendemos ainda instalar um sistema de carrossel e duas
docas com elevadores hidráulicos para suportar a operação, que
acreditamos iniciar dentro de três meses", prevê Maurício
Tinello.
Silvia Marino
Roche: (11)
3719-4568 Qualilog: (11)
3815-6840 |